10 agosto 2018

Pesquisa: recurso da formação docente


Refletir sobre os resultados de pesquisas sobre a qualidade do ensino no Brasil revelam passa necessariamente pela análise da formação do professor. Enquanto instrumento formador de indivíduos, se o docente não tiver a percepção da necessidade de investir, continuamente, em sua própria formação e aprimoramento, a intermediação que fará entre os saberes e os alunos será aquém da esperada.

Uma das formas de viabilizar o incremento da formação docente e, consequentemente, a qualidade do ensino no Brasil, está na incorporação da pesquisa como prática cotidiana da vida docente, tendo em vista ser ela -  a pesquisa -  a prática que levará ao encontro de novas formas e percepções sobre o processo de ensino e aprendizagem.

Mas do que isso, é a pesquisa que permitirá aos docentes e às escolas adequar o ensino às mudanças que a sociedade enfrenta cotidianamente e que devem ser inseridas no ambiente escolar, pois só assim, o ensino passará a ter significado para os estudantes, resultando em um maior engajamento às atividades escolares.

Em palestra proferida em agosto de 2016, o professor Pedro Demo questionou aos presentes qual seria o trunfo dos indivíduos na sociedade do conhecimento, Para ele, o trunfo “é saber construir conhecimento. Não é copiar. Não é reproduzir.”

A afirmação de Demo reforça os argumentos apresentados por Isauro Beltrán Nuñez e Betania Leite Ramalho, no artigo “A pesquisa como recurso da formação e da construção de uma nova identidade docente: notas para uma discussão inicial”, publicada na EccoS Revista Científica, em junho de 2005.
O artigo discute a formação de uma identidade do professor profissional que diverge da do tradicional professor técnico, que leva para a sala de aula apenas a reprodução de conteúdos previamente definidos, sem uma construção crítica da temática abordada.

Para os autores, a identidade do professor profissional passa pela construção do conhecimento, a partir da agregação do valor.

Neste sentido, a pesquisa não pode ser entendida como um trabalho a mais do docente, mas sim como a base do fazer profissional do professor, que parte do conhecimento atual para novas possibilidades, a partir de problemas identificados em seu próprio fazer que estimulam a busca por novas formas de atuação, “tendo a pesquisa como princípio norteador dessa formação, com foco no processo de ensino-aprendizagem, e como elemento de compreensão no que se refere ao processo de construção do conhecimento.” (RAMALHO; NUÑEZ, 2005, p. 90)

Em um breve histórico apresentado no artigo, Ramalho & Nuñez (2005) demonstram que a pesquisa leva à inovação da prática do professor, na medida em que este percebe a sala de aula como um laboratório e a si mesmo como um investigador, afim de gerar conhecimento.

Ramalho & Nuñez (2005) discorrem sobre experiências docentes no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa  e na América Latina e destacam que “o professor deve pesquisar sobre sua atividade profissional, enquanto práxis, e não apenas como pesquisa limitada à sua prática na sala de aula, no sentido não só da inovação, mas também do desenvolvimento do currículo.” (RAMALHO; NUÑEZ, 2005, p. 96)

O desenvolvimento de pesquisas e a inovação na atuação do professor levam a formação de uma identidade pessoal e profissional mais abrangente e socialmente reconhecidas do que a atual. Isso se deve ao fato de possibilitar avanços na conquista de resultados positivos na avaliação da qualidade do ensino, a partir da reformulação da conduta docente.

Na palestra proferida por Demo (2016), mencionada no início deste texto, o professor ressalta que para levar o aluno a aprender, o docente precisa estimular o estudante a construir conhecimento, a pesquisar informações, a produzir as próprias interpretações e escrevê-las, o que representa um processo em construção. Porém, se o professor não constrói o próprio conhecimento que se propõe a transmitir, não pode cobrar que o aluno faça o que ele não faz.

Com experiência de pesquisador na Alemanha, Demo destaca que, no Brasil, é preciso superar a cristalizada identidade social docente, pautada no modelo hegemônico de formação, a partir da atuação individual, que, como Ramalho & Nuñez (2005) observam, deve ter no indivíduo o principal ator na construção de sua identidade.
Os professores são os principais atores na construção de sua identidade, como parte dos processos de profissionalização; dessa forma, não lhes podem ser dadas “identidades prontas” para que eles ajam. As identidades profissionais surgem e se modificam durante a formação inicial na qual enfrentam realidades diversas tanto no contexto da atividade profissional quanto nos sociais mais amplos, em face de novas necessidades sentidas pelos professores. Isso exige novas configurações pessoais, intergrupais e individuais, no sentido de assumir matrizes que caracterizam novos estágios de profissionalização e de identidades. (RAMALHO; NUÑEZ, 2005, p. 100)
Os autores vão além ao destacar que a pesquisa como base da atuação do professor não se restringe ao processo de produção de conhecimentos teóricos, mas também na necessária intervenção sobre a prática docente, a partir das referências das mais variadas áreas do conhecimento científico, que produzem, socializam e contribuem para a prática docente.

O desenvolvimento do hábito da pesquisa, observam Ramalho & Nuñez (2005), transforma a identidade dos indivíduos e da categoria profissional, ao mesmo tempo em que transforma as instituições de ensino em instituições que aprendem a partir das próprias práticas, de maneira sistematizada, para a formação de formadores.

Dessa prática resulta o que Ramalho & Nuñez (2005) definem como desenvolvimento profissional, caracterizado por um processo de autotransformação.
Os espaços e o tempo para o trabalho docente são tão importantes quanto a formação direcionada à incorporação de saberes construídos como elementos das identidades. É na prática que se ressignificam os saberes da formação e se desenvolvem saberes práticos necessários ao seu aperfeiçoamento e ao desenvolvimento profissional dos docentes. Nesses processos, a pesquisa que o professor realiza sobre sua atividade profissional ocupa um lugar relevante. (RAMALHO; NUÑEZ, 2005, p. 106)
Nada como os problemas vivenciados no cotidiano docente para estimular a busca por soluções criativas.

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