04 outubro 2017

O Santo Inquérito


Quer uma dica de livro para ser lido em pouco mais de uma hora? Este é O Santo Inquérito, peça de Dias Gomes, encenada pela primeira vez em 1996.

Em um texto essencialmente visual, o autor narra um episódio que envolve uma família da Paraíba em um mal-entendido com a Igreja Católica no período da Inquisição.

Branca Dias é uma jovem descendente dos cristãos-novos que salva a vida de padre Bernardo, vítima de afogamento.

Para expressar sua gratidão à moça, o padre se coloca como orientador espiritual da jovem que, com o passar dos dias, se revela a frente do seu tempo por saber ler e escrever, o que era proibido às mulheres à época.

Mesmo à revelia do pai, o noivo de branca a ensina a ler e a escrever, assim como a presenteia com livros, inclusive uma Bíblia traduzida para o português, o que era proibido pela Igreja.

A influência que Augusto Coutinho, o noivo, tinha sobre Branca, e os questionamentos que ela fazia às colocações de padre Bernardo, mesmo que de maneira inocente, o levaram a plantar a dúvida nela sobre ser uma pessoa boa, que vivia de acordo com os ensinamentos cristãos.

As dúvidas de branca não a afastaram do noivo e/ou das próprias convicções. Esta realidade incomodou o padre ao ponto de leva-lo a denunciar a família à comissão de inquisição.

Augusto estudou na Europa e tal influencia o tornou alguém defensor dos valores morais que devem mover o homem e que este não pode abrir mão de tudo, para não perder a própria dignidade.

Por uma causa qualquer, grande ou pequena, alguém tem que sofrer. Porque nem de tudo se pode abrir mão. Há um mínimo de dignidade que o homem não pode negociar, nem mesmo em troca da liberdade. Nem mesmo em troca do sol.


Tais ideias tinham tanto sentido para Branca que mesmo diante da comissão que a julgaria enquanto herege ou não, manteve-se firme em seus propósitos e foi jugada por não ceder às pressões e ameaças feitas pelo clero para se assumir culpada de acusações que ela nem mesmo teve o direito de saber quais foram.

Uma pessoa deve ser fiel a si mesma, antes de tudo. Fiel à sua crença.


Mesmo diante do desespero que abateu por saber da prisão e tortura do pai e do noivo, se manteve firme, fiel a si mesma. E na tentativa de argumentar com os integrantes da comissão de inquérito ressaltou:

O ódio não converte ninguém.


Prestes a ser queimada viva por ter sido considerada culpada pela inquisição, padre Bernardo deixa claro que o crime de Branca foi fazê-lo se apaixonar por ela e que, como culpada, precisava pagar e libertá-lo do pecado que o obrigava a cometer.

Mais uma vez, estamos diante de um texto que trata da responsabilização do outro por condutas que são de cada um de nós. Peça gostosa de ler e de forte significado. Vale a leitura! 

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