05 março 2018

Sursis


Uma narrativa intensa que retrata os últimos sete dias do mês de setembro de 1938 e a expectativa dos franceses para o início da Segunda Guerra Mundial. Este é Sursis, de Jean-Paul Sartre e que integra, como segunda obra, a trilogia Os Caminhos da Liberdade relançada em 2017 pela Nova Fronteira e venda exclusiva pela Amazon.

Publicado pela primeira vez em 1945 pela editora Gallimard, Sursis leva o leitor a acompanha não apenas a trajetória de Mathieu neste momento específico da França, mas de diversas outras personagens que se entrelaçam a cada linha do texto.

Os diálogos e pensamentos expostos por Sartre não permitem ao leitor compreender já no primeiro momento que o texto estruturado em fluxo de consciência de várias pessoas ao mesmo tempo visa transmitir a angustia daqueles indivíduos diante da incerteza de uma nova guerra.

Sim, Sartre alcança o objetivo ao qual se propõe na medida em que, no decorrer das 399 páginas que compõem o livro, o leitor passa a identificar narradores e compartilhar sentimentos das mais diversas personagens.

Mais do que isso, o autor nos leva a refletir sobre o quanto a trajetória de nossas vidas é alterada de acordo com as pessoas que cruzam nosso caminho e das contingencias da vida, como uma guerra, por exemplo.

A convocação dos homens para um conflito armado ainda não declarado, as mudanças no cotidiano social causadas por esta convocação, a expectativa da população diante da negociação dos representantes de grandes nações, como Reino Unido, França, Alemanha e Itália, a respeito da soberania de um país, a Checoslováquia, que nem mesmo teve a chance de argumentar.

O texto ressalta como a adaptação à uma nova realidade nos leva a abrir mão de coisas que nos representam e identificam, e que quanto as contingências não se confirmam e somos levados a retornar ao ponto de partida, o contexto anterior, que nos parecia tão natural, perde o sentido.

Sentia-se forte; havia no fundo dele uma pequena angústia que começava a conhecer, uma pequena angustia que lhe dava confiança. Uma pessoa qualquer, num lugar qualquer. Não possuía mais nada, não era mais nada. A noite sombria da antevéspera não seria perdida; aquela enorme agitação não seria inteiramente inútil. Quer recoloquem o sabre na bainha se quiserem, que façam sua guerra ou não façam, pouco importa; não sou trouxa. A sanfona emudecera. Mathieu recomeçou a andar pelo pátio. “Permanecerei livre”, pensou.

Nesta obra, Sartre nos leva tanto a retomar detalhes da história mundial como a refletir sobre até que ponto temos a liberdade para, realmente, ser e viver como escolhemos.
Leitura que segue com o terceiro volume da trilogia Com a morte na alma. 💭

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