30 setembro 2019

O que fica...



 Desde abril, quando papai foi internado para tratar uma pneumonia que se revelou um câncer no pulmão, nossas conversas sobre livros, filmes e afins tornaram-se muito mais frequentes e de intensas influências recíprocas, com troca de livros e a adesão efetiva dele ao Kindle.

Entre os temas iniciais de nossos encontros a pergunta “tá lendo o que?” sempre fazia parte do repertório, que incluía, entre outras coisas, “como foi o dia?”, “fez nebulização?”, “comeu bem?”...

Na noite do sábado, 21 de setembro de 2019, não foi diferente. Enquanto fazíamos um lanchinho, antes de assistir Matrix (1999), pela enésima vez, contei como foi bacana o segundo encontro do projeto de leitura, que tinha acontecido naquela manhã, no qual estamos lendo O Poder do Hábito, de Charles Duhigg.

Disse ainda que por causa dessa leitura e da mudança do meu projeto do Doutorado, Rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda, de Howard Pyle, que comecei a ler em julho tinha ficado de lado, mas que queria concluir assim que acabasse O Poder do Hábito.

Papai disse que tinha terminado O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, no dia anterior. Perguntou se eu estava achando Rei Arthur chato, ao que respondi negativamente. Expliquei que é um livro infantil e que não tem grandes emoções, mas é um bom livro, especialmente para relaxar e/ou para ser inserido entre a leitura de textos mais densos.

Papai disse que precisava de um texto desse modelo depois de O Triste Fim de Policarpo Quaresma, que achou muito arrastado nesta releitura. “Só não é pior do que Macunaíma, o pior livro do universo”, respondi, ao que ele assentiu, entre risos.

Aquela conversa terminou com papai dizendo que começaria a ler Rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda, na segunda-feira, 23, “porque segunda é dia de começar novas coisas, não sábado. E ainda vou terminar antes de você!”, afirmou.

Na madrugada da segunda para a terça-feira, 24, minha irmã precisou ir com papai para a emergência do Hospital da Base Aérea. No final da tarde da terça, papai foi transferido para a UTI do Hospital Rio Grande. Na tarde da quarta-feira, meu dia de acompanhá-lo, papai foi transferido para o leito vip 2 da UTI do Hospital Rio Grande, onde poderíamos ficar com ele o tempo todo.

Papai faleceu na quarta-feira, 25 de setembro de 2019, de insuficiência respiratória, às 19h15. Esta foi a hora que o médico, que ficou ao meu lado e de papai até o momento final, verificou no meu relógio, que não tem o ponteiro dos segundos e que, por esta razão, papai não gostava.

-Pai, quer que eu marque o tempo da nebulização?

- Não! Esse seu relógio sem ponteiro não presta!

Na noite da sexta-feira, 27 de setembro de 2019, resolvi organizar as coisas que estavam com papai no hospital e trouxemos aqui para casa, inclusive o Kindle. Quando o abri, o livro em andamento era Rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda, com 12% da leitura feita.

“(...) muitas vezes a morte e o sofrimento vêm a alguns ao mesmo tempo em que outros riem e cantam de pura esperança e alegria, como se coisas tão dolorosas como a tristeza e a morte jamais pudessem existir no mundo em que vivem”. Howard Pyle | Rei Arthur e os cavaleiros da távola redonda

O meu permanece em 39%.

Não tivemos tempo para conversar sobre este livro, mas o que fica é a postura, o compromisso um com o outro, o desejo de alimentar o estímulo e a consciência de inspiração recíproca.

Não somos perfeitos, pai, mas foram justamente as nossas imperfeições que nos ensinaram a respeitar a individualidade do outro e aprender com ela.

Amo você! Fique bem..