Em tempos de notícias sobre a prática de transcrição dos áudios gravados por nós por empresas como Facebook, Google e Amazon.com, assim como investigações sobre vendas de dados individuais compilados de redes sociais para orientação de estratégias políticas e eleitorais que por exemplo, levaram Donald Trump à Casa Branca e o Reino Unido a aprovar o Brexit, no mínimo nos faz pensar se algum dia estivemos seguros neste ambiente no qual nos encontramos neste momento.
Ao ler em um livro publicado em 2012, como é o caso de O Poder do Hábito - Por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios, de Charles Duhigg, que “Num futuro bem próximo, dizem os experts, em análise previsiva, as empresas poderão conhecer nossos gostos e prever nossos hábitos melhor do que nós mesmos nos conhecemos.”, percebemos que a situação que aí está resulta de práticas antigas que, na verdade, têm sido aprimoradas e potencializadas pelas tecnologias da informação e comunicação digitais à nossa disposição.
Este é o tema que o autor aborda no capítulo 7 do livro, intitulado Como a Target sabe o que você sabe antes que você saiba - Quando as empresas preveem (e manipulam) hábitos.
Duhigg revela que em 2002, empresas norte-americanas, como a Target, já contavam com estatísticos em equipes de planejamento e desenvolvimento de estratégias comerciais para analisar os dados sobre os hábitos de compras, perfis demográficos para identificar o hábitos dos cliente, estimular a compra de produtos específicos a cada um e aumentar as chances de atração de determinado público.
O que esses profissionais foram descobrindo ao longo do tempo é que não bastava identificar aquilo que as pessoas estariam propensas a comprar, pois o hábito fazia com que elas comprassem apenas o que já estavam acostumadas.
Como você se aproveita dos hábitos de uma pessoa sem deixar que ela saiba que você está estudando cada detalhe de sua vida? (...) Seja vendendo uma nova música, uma nova comida ou um novo berço, a lição é a mesma: se você veste alguma coisa nova em hábitos antigos, fica mais fácil para o público aceitá-la.
A preocupação em manipular a forma de apresentação dos dados e dos produtos e serviços sugeridos deve acontecer porque, no geral, as pessoas – como eu! – tendem a se sentir bastante incomodadas quando descobrem que estão sendo monitoradas pelas empresas que, sim, compram dados com o objetivo de estruturar perfis da forma mais completa possível.
“Antigamente, as empresas só sabiam o que seus clientes queriam que elas soubessem”, disse Tom Davenport, um dos maiores pesquisadores de como as empresas utilizam dados e análises. “Esse mundo ficou muito para trás. Você ficaria chocado se soubesse quanta informação corre por aí — e toda empresa as compra, pois é o único jeito de sobreviver.”
Os casos relatados por Duhigg neste capítulo reforçam a percepção de que este é um livro que vai muito além da autoajuda, categoria na qual está classificado, sendo, na verdade, um livro de marketing.
Refletindo sobre o questionamento inicialmente feito neste texto, a respeito da segurança neste ambiente, sinceramente, tendo a pensar que a resposta é não, nunca tivemos, de fato. Mais do que isso, tendo a crer que cada vez menos será possível pensar em segurança no ambiente virtual, naturalmente manipulado por algoritmos estruturados para atender interesses específicos de organizações que estão bem distantes dos nossos interesses individuais.
Que coisa, não?!
Leitura que segue!
