Recuperar o controle sobre o cotidiano e restabelecer rotina é um desafio que tem se mostrado mais complexo do que poderia imaginar e que passa por um verbo que Hannah Arendt enfatiza nas primeiras páginas do livro Origens do Totalitarismo – Antissemitismo, imperialismo, totalitarismo, que é o compreender.
Do prefácio à primeira edição ao primeiro tópico [O antissemitismo como uma ofensa ao bom senso] do Capítulo 1, intitulado Antissemitismo, a autora ressalta que “compreender significa, em suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela – qualquer que seja”.
Hannah Arendt foi uma filósofa política alemã, de origem judaica, que viveu entre 1904 e 1975, sendo considerada uma das pensadoras mais influentes do século XX.
Não é por acaso que a escritora dá ênfase ao verbo ‘compreender’ no início deste livro, que começa discutindo as origens do antissemitismo e do ódio religioso aos judeus.
Arendt ressalta que é preciso ir além do que está posto pelo senso comum, de vitimizar os judeus, especialmente, após o Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial.
Ela explica que a escolha do inimigo nazista não foi aleatória, tem conotação política e econômica que passam distante da perspectiva nacionalista como muito se defende ainda hoje.
Mais do que isso, Arendt ressalta a necessidade de responsabilização da ideologia judaica, pelo fato deste povo não querer, até o momento do Holocausto, ser aceito pela comunidade internacional, por questões culturais e religiosas.
"Os nazistas não eram meros nacionalistas. Sua propaganda nacionalista era dirigida aos simpatizantes e não aos membros convictos do partido. Ao contrário, este jamais se permitiu perder de vista o alvo político supranacional. O ‘nacionalismo’ nazista assemelhava-se à propaganda da União Soviética, que também é usada apenas como repasto aos preconceitos das massas. Os nazistas sentiam genuíno desprezo, jamais abolido, pela estreiteza do nacionalismo e pelo provincianismo do Estado-nação. Repetiram muitas vezes que se movimento, de âmbito internacional (como, aliás, é o movimento bolchevista), era mais importante para eles do que o Estado, o qual necessariamente estaria limitado a um território específico. E não só o período nazista, mas os cinquenta anos anteriores da história antissemita dão prova contrária à identificação do antissemitismo com o nacionalismo. Os primeiros partidos antissemitas das últimas décadas do século XIX foram os primeiros a coligar-se em nível internacional. Desde o início, convocavam congressos internacionais, e preocupavam-se com a coordenação de atividades em escala internacional ou, pelo menos, intereuropeia." Hannah Arendt
O fato de ser de origem judaica não limitou a reflexão de Hannah Arendt a uma postura de vitimização. Ao contrário, a escritora apresenta neste livro, publicado pela primeira vez em 1951 e que, nesta edição da Companhia das Letras, de 2012, conta com 640 páginas, que a história é muito mais complexa do que se pode imaginar e requer olhar aguçado para analisar os fatos e personagens de maneira anão linear, de acordo com as especificidades inerentes a cada ator e contexto.
Origens do Totalitarismo está sendo o livro de leitura compartilhada organizado pela @fala_fernanda , no Instagram. A cada etapa concluída, um texto será publicado para registrar esta experiência de leitura que, apesar de densa, em relação ao conteúdo, tem formato, escrita leve e extrema relevância.
Leitura que segue, assim como a busca pela compreensão de mim mesma e da realidade que nos envolve!
