Uma das características que fazem do livro O Poder do Hábito – Por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios, de Charles Duhigg, um sucesso é surpreendente abordagem que oferece ao leitor a cada capítulo.
Além da estrutura organizada de maneira ascendente para mostrar que os hábitos individuais embasam os coletivos, a narrativa de Duhigg torna a leitura envolvente na medida em que apresenta elementos inesperados e, ao mesmo tempo, nada irrelevantes.
Exemplo disso é o capítulo nove da obra, intitulado A neurologia do livre-arbítrio – Somos responsáveis pelos nossos hábitos?, no qual o autor leva o leitor a refletir sobre elementos apresentados por ele mesmo ao longo do livro.
Bom, se quando as ações se tornam hábitos o cérebro não pensa mais sobre elas, que são realizadas de maneira inconsciente, é possível responsabilizar alguém por crimes cometidos e/ou condutas decorrentes dos maus hábitos?
Duhhig é enfático ao afirmar que sim, somos responsáveis por nossos hábitos. À exceção de casos incluídos sob a perspectiva do “terror noturno”.
“Quando um terror noturno ocorre, a atividade dentro do cérebro da pessoa é marcadamente diferente de quando ela está acordada, semiconsciente ou mesmo sofrendo de sonambulismo. As pessoas em meio a terrores noturnos parecem ser tomadas por ansiedades terríveis, mas não estão sonhando no sentido normal da palavra. Seu cérebro fica inativo, a não ser pelas regiões neurológicas mais primitivas, o que inclui os chamados 'geradores de padrões centrais'. (...). Para um neurologista, na verdade, um cérebro vivenciando um terror noturno é muito parecido com um cérebro seguindo um hábito.”
A despeito desses casos, Charles Duhigg observa que mesmo o mais complexo dos hábitos é maleável e pode ser modificado, desde que o indivíduo esteja disposto a modificá-lo.
Os indivíduos, ressalta o autor, têm a liberdade e a responsabilidade de modificar os hábitos, cientes de que mesmo não sendo simples, é possível identificar as deixas e as recompensas que levam ao estabelecimento das rotinas do hábito, para que assim possam encontrar alternativas e controlar as ações.
“E uma vez que sabe que um hábito existe, você tem a responsabilidade de mudá-lo.”
Para ilustrar esta ideia, Duhigg apresenta, entre outros, o caso de William James, que dedicou a vida à pesquisa sobre hábitos, depois de anos de autocobrança por não alcançar os resultados profissionais dos demais membros de sua família, chegando a cogitar o suicídio, como revelam os registros do diário que mantinha.
A história de William James mudou quando ele decidiu dedicar 12 meses à crença de que tinha controle sobre ele mesmo e os rumos de sua vida e que poderia melhorar.
“Não havia prova de que isso era verdade. Mas ele se libertaria para acreditar, apesar de todas as evidências contrárias, que a mudança era possível. ‘Acho que ontem foi uma crise na minha vida’, ele escreveu em seu diário. No que dizia respeito a sua capacidade de mudar, ‘Vou assumir por enquanto — até o ano que vem — que não é uma ilusão. Meu primeiro ato de livre-arbítrio será acreditar no livre-arbítrio.’”
O período que se seguiu levou William James a perceber que a maneira como pensamos cria o mundo que habitamos que pode ser limitador ou não. Com disciplina, praticou diariamente o que se propôs, registrando no diário sentimentos e pensamentos sem a presença de dúvidas sobre si mesmo e suas escolhas.
O resultado desta experiência foi o que James considerou o renascimento de si mesmo!
“Mais tarde, ele escreveria a famosa afirmação de que a vontade de ter fé é o ingrediente mais importante para criar fé na mudança. E que um dos métodos mais importantes para criar essa crença eram os hábitos. Os hábitos, ele notou, são o que nos permite ‘fazer uma coisa com dificuldade da primeira vez, mas logo fazê-la de modo cada vez mais fácil e, por fim, com prática suficiente, fazê-la de modo semimecânico, ou com praticamente nenhuma consciência’. Uma vez que escolhem quem querem ser, as pessoas crescem ‘na maneira como foram exercitadas, assim como uma folha de papel ou um casaco, quando vincado ou dobrado, tende a depois cair sempre nas mesmas dobras idênticas’.”
Afirmar que a vontade de ter fé é mais importante do que a própria fé significa fizer que se acreditamos que podemos mudar, e tornamos este pensamento/sentimento em um hábito, a mudança já está acontecendo!
E então, o que você quer mudar?
