A morte de Marcelo Yuka, baterista e um dos fundadores do grupo O Rappa, no dia 19 de janeiro de 2019, me levou a reorganizar minha lista de leituras de modo a trazer para mais para perto alguns títulos que deseja valer há algum tempo, assim como inserir outros que, por uma razão ou outra, ainda não constavam nesta longa lista de desejos.
Foi assim que Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva, passou a ingressar a meta de leituras deste ano, em uma edição de 2006, publicada pela editora Objetiva, com 270 páginas.
O livro conta como foram os doze meses após o acidente sofrido por Marcelo - um mergulho mal calculado em uma piscina rasa, que resultou na fratura de uma das vértebras e o deixou tetraplégico –, a recuperação e a adaptação à nova condição de vida.
Sem dúvida, a escolha também foi influenciada pelo fato de Yuka ter se tornado cadeirante, em consequência de tiros que levou após ter entrado com seu carro em uma rua onde estava acontecendo um assalto, no Rio deJaneiro, no ano de 2000.
O acidente de Marcelo aconteceu em dezembro de 1979, ou seja, há 40 anos, e uma das coisas bacanas do livro é justamente poder entrar em contato com o contexto da época, como as relações sociais, sexuais, políticas, culturais e econômicas, bem diferentes das de hoje e como as experiências vividas no Brasil do final doséculo XX influenciaram e ainda influenciam o Brasil do século XXI.
Sem falar, é claro, nas transformações que acontecem nas relações quando eventos excepcionais, como um acidente, muda os rumos de nossas vidas.
Vou usar um velho chavão, mas é verdade que não é matando um corpo que se elimina um homem.
Durante a leitura livro é preciso levar em conta que ele é narrado sob a perspectiva de um jovem de vinte e poucos anos, que pouco a pouco vai percebendo a gravidade do problema que então enfrenta.
Assim, a escrita é desenvolvida como uma conversa informal e, portanto, recheada de gírias, palavrões, relatos de experiências diversas, inclusive sexuais e de uso de drogas, mas que, acima de tudo levam o leitor a compreender como as mudanças no corpo influenciaram a mente o comportamento do autor, assim como as idas e vindas ao hospital, tratamentos, medicamentos e, principalmente, a descoberta da necessidade da consciência de si mesmo para a construção de uma nova independência.
(...), não vamos desprezar as mudanças.
Este é o tipo de leitura que flui muito facilmente e, apesar disso, leva à reflexões significativas sobre o valor da vida. É um livro que estimula o exercício do olhar sobre o outro e sobre nós mesmos. E só por isso já vale a leitura!
A maioria ficou indiferente, como toda ‘maioria’.
