26 abril 2017

Marx e “O 18 de Brumário de Louis Bonaparte”

Abrir os jornais e ler o noticiário nem sempre é sinônimo de compreensão da realidade que nos cerca, pois dependemos tanto da habilidade daqueles que nos contam as histórias, como de nossa capacidade de apreensão a respeito do contexto que envolvem os fatos relatados. Apesar de se propor a ser, esta não é uma equação simples.

Esta é a ideia, o encanto e a dificuldade que cercam a obra “O 18 de Brumário de Louis Bonaparte”, escrito por Karl Marx, que teve a primeira edição publicada em 1852. Mais do que um relato a respeito dos atos e fatos registrados na França entre 1848 e 1851, Marx analisa as relações firmadas e formadas pelos atores sociais à época em um país marcado por turbulências social, econômica e ideológica que marcam a luta de classes.

A partir do retrato deste período que inicia com a eleição de Louis Bonaparte e termina com o encaminhamento ao golpe de Estado que o consagra imperador, Marx nos leva a uma viagem que resgata momentos históricos da formação política francesa desde a Revolução de 1789, passando pela ascensão e golpe de Napoleão Bonaparte -  tio de Louis Bonaparte – e todas as idas e vindas entre dos modelos de Estados adotados no País.

Com um texto marcado pelo sarcasmo que não hesita em usar adjetivos depreciativos para caracterizar personagens -  especialmente o protagonista da história -  e os atos cometidos por eles, Marx analisa o papel dos poderes legislativo e executivo, a promiscuidade das relações dos detentores do poder que tornam cada vez mais distante do real a promessa de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que levou a burguesia ao poder e a corrompeu.

Nesta obra, o propósito de Marx é nos mostrar que a história é cíclica, que os fatos se repetem, algumas vezes, nem mesmo o nome das personagens muda. Se não há diferença na forma, mas sim o conteúdo, como ele mesmo ressalta ao deixar claro que o Louis é uma medíocre versão de Napoleão Bonaparte e que, mesmo que a gestão deste não tenha sido boa, a do sobrinho foi ainda pior.

Na análise do turbulento período presidencial de Louis Bonaparte, Karl Marx antevê o golpe a ser dado por ele e explica como as forças vigentes favoreceriam a ação que só aconteceria meses após a publicação dos escritos do autor.

Aos que relutam em ler Marx por conceitos previamente estabelecidos, vale ressaltar que a sagacidade analítica revelada por ele é para poucos. Neste texto que, apesar de conter menos de cem páginas, é denso e repleto de informações como um calhamaço, foi escrito em um período de dezembro de 1851 a março de 1852, em uma época na qual não existia internet para a apuração dos dados, e publicados no primeiro número da revista Die Revolution em 1852, em Nova York,nos Estados Unidos, enquanto o autor estava em Londres.

Assim, é possível perceber que os clássicos não são chamados clássicos à toa!


Finalmente, a república parlamentar, na sua luta contra a revolução, viu-se obrigada a fortalecer, juntamente com as medidas repressivas, os meios e a centralização do poder do governo. Todas as revoluções aperfeiçoam esta máquina, em vez de a destruir. Os partidos que lutavam alternadamente pela dominação, consideravam a tomada de posse deste imenso edifício do Estado como a presa principal do vencedor.
Mas sob a monarquia absoluta, durante a primeira revolução, sob Napoleão, a burocracia era apenas o meio para preparar a dominação de classe da burguesia. Sob a restauração, sob Louis-Philippe, sob a república parlamentar, era o instrumento da classe dominante, por muito que também aspirasse a um poder próprio.

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