01 setembro 2023

Gay Talese acerta até mesmo quando erra

Até quando erra, Gay Talese acerta. Esta é a constatação básica depois de ler o livro “O voyeur” do jornalista norte-americano, criador do jornalismo literário, publicado em 2016, e de assistir ao documentário homônimo disponível na Netflix desde 2017. Neste, além da entrevista com o escritor, o espectador é colocado diante de Gerald Foos, o protagonista do livro.

O erro mencionado está relacionado aos problemas de apuração e inconsistências dos fatos que fundamentam a história de Foos e admitidos por Gay Talese, na autocritica que faz, reconhecendo, porém, ter reagido de maneira extrema ao desautorizar, à época, o próprio trabalho por causa dos questionamentos, sem antes checar os dados da checagem. Pode parecer redundante, mas é isso mesmo.
Este título surgiu como indicação do Kindle, ao final da leitura de “Chico Mendes: crime e castigo”, de Zuenir Ventura, por também integrar a Coleção Jornalismo Literário, da editora Companhia das Letras. No embalo da história do Acre, relatada por Ventura, foi a hora de mergulhar na do voyeur, de Talese. Em comum, o viés jornalístico não ficcional de narrar que, como toda boa literatura, coloca o leitor diante de fatos, dados e aspectos sociais que proporcionam as mais diversas reflexões.
Em “O voyeur”, Talese relata a rotina de Gerald Foos de espionar os hóspedes de um motel do qual foi dono por cerca de 15 anos, onde construiu um sistema de observação de parte dos quartos pelo sótão da edificação. Do interesse inicial de acompanhar a vida sexual dos hóspedes, o diário criado por Foos levou à identificação, por meio da conduta individual e coletiva, traços da cultura da época, das transformações sociais e da importância do autoconhecimento, por exemplo. Tudo isso não sem deixar o leitor de cabelos em pé tendo me vista ser inevitavelmente passar a olhar com desconfiança todas as instalações coletivas, pois, se Foos conseguiu espionar milhares de pessoas sem levantar suspeitas entre meados da década de 1960 até os anos 90 do século passado, o que será possível fazer hoje, diante do acesso a um aparato tecnológico sem precedentes?
Os relatos de câmeras escondidas em instalações do AirBnb estão aí para quem se dispuser a conhecê-las.
O trabalho de Gay Talese foi publicado depois de mais de três décadas de contato com o voyeur, que o procurou para contar a própria história, mas sem querer que a própria identidade fosse revelada. Como Talese escreve não ficção, expor a identidade de Gerald Foos era premissa inegociável para ele que, entre outras coisas, acredita que “em sua maioria, os jornalistas são incansáveis voyeurs que veem os defeitos do mundo, as imperfeições das pessoas e dos lugares.” Mesmo que não tenhamos consciência, esta é uma descrição pertinente da realidade.
Se isso tudo não basta para fazê-lo mergulhar neste livro, esta é uma obra que estimula a reflexão sobre a falta de privacidade com a qual convivemos hoje sem nem mesmo nos questionar sobre isso, como bem afirma Foos em uma das entradas do diário, quando diz:

“Tudo o que sabemos é que quase tudo o que fazemos está registrado. (...). Agora as vidas privadas de figuras públicas são expostas na mídia quase todos os dias (...). A mídia está agora no negócio do voyeurismo, mas o maior voyeur de todos é o governo dos Estados Unidos, que está de olho em nossas vidas através de câmeras de segurança, da internet, de nossos cartões de créditos, de nossas contas bancárias, nossos telefones celulares, iPhones, informações de GPS, nossas passagens de avião, escutas telefônicas e todo resto.” (p. 195 – 196)

Entrevista
Além de “O voyeur” ser um daqueles livros que nos faz ter a certeza de que ninguém conhece ninguém, ao final do volume, o leitor tem acesso a uma entrevista concedida por Gay Talese, em 2009, à revista literária Paris Review. Delicioso de ler, o conteúdo traz o jornalista mais para perto de nós, na medida em que esmiuça o processo produtivo dele, hábitos e referências. O processo produtivo de Talese também é um dos fios condutores do texto desta obra que expande muito o conteúdo 18+ explorado nas pouco mais de 220 páginas que compõem o livro. Sim, o título do livro é autoexplicativo, apesar de não o resumi-lo. Mas é bom ressaltar que se o leitor for sensível às descrições de sexo explícito, talvez seja melhor não lê-lo.
Documentário
Dirigido por Myles Kane e Josh Koury, o documentário “Voyeur”, tem 1h35 de duração e classificação etária de 14 anos. Nele, o espectador é colocado em contato com as reações e expectativas de Gay Talese e Gerald Foos dias antes do lançamento do livro do jornalista, bem como compreender um pouco mais da relação deles. Divergências sobre fatos e dados são revelados, como, por exemplo, a frustração de Froos com a impossibilidade de controlar a escrita de Talese. Este, por sua vez, brilha em forma e conteúdo, especialmente ao assumir a responsabilidade por erros, acertos e as consequências das próprias escolhas. Uma aula de jornalismo. Uma aula de humanidade.