É inevitável, dizem. Aprendemos todos os dias, o tempo inteiro, mesmo que não nos demos conta. A sugestão que seguiu essa constatação foi a de praticarmos a racionalização do aprendizado de cada dia. E, como toda boa lição, esta também não é fácil.
Em uma prática que segue corriqueira em nossos dias, Adão responsabiliza Eva pelo erro cometido por ele mesmo. Eva segue o padrão do companheiro e responsabiliza a cobra, que, sem tem a quem responsabilizar, é a malfadada até os dias de hoje. Tal história, que independente da crença individual, é conhecida por todos, é, segundo o interlocutor, uma metáfora das relações sociais de uma época na qual os casamentos interculturais eram comuns, mas não sem resultar em problemas, como a adoração de cobras por algumas culturas, prática criticada pelos judeus.
O explicador ressaltou que essa metáfora fazia referência à desobediência de judeus aos ritos tradicionais que os orientava, como consequência da influência das mulheres não-judaicas com as quais estavam se casando, sendo tais mudanças no comportamento consideradas problemáticas. Ou seja, sob essa perspectiva, o livro do Gênesis seria uma crítica ao estrangeiro e à cultura dele que, por ser diferente, era considerada errada.
Como toda figura de linguagem, a metáfora possibilita interpretações variadas, a depender do conhecimento de mundo, contexto e experiências do leitor. Essa forma textual, predominante na Bíblia, reforça a ideia da inexistência de verdades absolutas, pois, por mais conhecido que o texto seja, ele é sempre passível de nova interpretação, o que pode resultar na mudança de significado do mesmo e do próprio valor intrínseco a ele.
Se expressão de xenofobia ou não, o livro do Gênesis seguirá ao longo do tempo como tema de discussão e interpretação, exemplificando a importância de estarmos abertos às variadas perspectivas que a vida nos apresenta como possibilidades de aprendizado. Como diz Mateus, o evangelista, no capítulo 111, versículo 15, do texto bíblico: “Quem tiver ouvidos, ouça!”
