Esse encontro aconteceu na década passada e revelou uma prática que é facilmente identificável nesta era da superficialidade, na qual há o que denominam de opção pelo conhecimento na horizontal em detrimento da verticalidade. Ao seguir a trilha do conhecimento na horizontal podemos saber um pouco de cada coisa, tipo o resumo de um livro não lido, mas sem a profundidade que a trilha verticalizada proporciona por meio da leitura completa do texto e da vivência da experiência que ele oferece.
Aqueles que optam pela verticalidade da construção do conhecimento identificam, facilmente, a superficialidade dos que optam pelo uso dos artifícios que a trilha na horizontal oferece. O conteúdo expresso revela a incapacidade de desenvolvimento de argumentos complexos, a falta de vocabulário e de capacidade para conectar assuntos diversos.
O conhecimento de cada um é proporcional ao tempo dedicado a construí-lo, mas observa-se que a manutenção da atividade intelectual é o que proporciona não só o desenvolvimento do cérebro e da criatividade, como a manutenção do patamar alcançado. Como qualquer músculo, o cérebro precisa de estímulo e, da mesma maneira que acontece com a prática da atividade física, recomeçar é mais difícil porque a tendência do corpo é a de economizar energia. Ou seja, não é porque você já leu e escreveu bem que continuará fazendo isso se assim o desejar. Sem a prática constante, não vai. O cérebro também se acomoda para economizar no gasto de energia.
No julgamento dos réus do processo realizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), sobre os ataques antidemocráticos às sedes dos três poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, um exemplo de verniz cultural foi facilmente identificado pelo cidadão comum quando o advogado de defesa, Hery Kattwinkel, confundiu “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, com “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel. “(...) parece que estão sendo usados como diz O Pequeno Príncipe, ‘os fins justificam os meios’ e podemos passar por cima de todos. Maquiavel, ‘os fins justificam os meios’”, disse o advogado, que foi criticado pelo ministro Alexandre de Morais, relator do caso, por, além de não ter apresentado a defesa do réu que representava, revelar que não leu nenhuma das duas obras.
As teorias da Educação orientam que o conhecimento das pessoas deve ser respeitado e utilizado como ponto de partida para o desenvolvimento do aprendizado, pois não existe conhecimento melhor ou pior. Porém, o advogado, que esteve no plenário do STF para apresentar a sustentação da defesa do réu que representava diante dos 11 ministros, não só não a fez, como tentou posar de intelectual, que, na verdade, não é. A falta de argumentos e referências revelam isso.
Para aprender, qualquer coisa, é preciso dedicação consistente que, por sua vez, é muito mais importante do que a intensidade. Para ler um livro é preciso começar pela primeira página. Se não quiser ler, tudo bem. Só evite dizer que leu, porque aquele que, de fato, o fez, saberá que a história contada não condiz com a realidade.
PS.: No discurso, o advogado de defesa ainda citou "Afonso Pilatos" que lavou as mãos no julgamento de Jesus. 🤷🏻♀️🤦🏻♀️
