30 agosto 2023

Defina o próprio caminho e estude, todos os dias

Meses atrás, ao concluir a leitura de “Os inovadores - Uma biografia da revolução digital”, de Walter Isaacson, a sensação foi de estar diante de um novo mundo. A constatação de fazer parte de uma transformação história sem, na maior parte do tempo, nos dar conta disso, muda a perspectiva sobre cotidiano, escolhas e perspectivas.

A tomada de consciência acontece no decorrer da leitura das cerca de 600 páginas que compõem o livro que não dá para ser degustado antes de dormir e / ou durante viagem de transporte público. Os detalhes técnicos, que tratam de aspectos matemáticos, condutores, transístor, chip, microchip, além dos aspectos históricos, geográficos e políticos, fazem desta obra de Isaacson uma das mais densas que já chegaram às mãos desta que vos escreve, ficando atrás, apenas de “Os Donos do Poder”, de Raymundo Faoro. Para este, mais de um ano foi dedicado para ler e compreender a história do Brasil desde a constituição da família real portuguesa, descrita na linguagem de um advogado.
“Os inovadores” também coloca o leitor em contato com o passado, mas sobretudo com o presente que, por sua vez, redireciona o futuro. Não sei se há palavras adequadas para descrever adequadamente como este livro representa o poder transformador das palavras. Como exemplo, cito o trecho a seguir, que diz:

“Pessoas que amam as artes e as ciências humanas também deveriam fazer um esforço para apreciar as belezas da matemática e da física, como Ada. Do contrário, serão meros circunstantes na interseção das artes com a ciência, onde ocorre a maior parte da criatividade da era digital. Entregarão o controle desse território aos engenheiros.”(p. 501)

É importante registrar que a primeira edição deste livro é de 2014, o que significa dizer, que foi publicado oito anos antes de a última versão do ChatGPT, por exemplo, chegar ao mercado e transformar, entre outras coisas, a lógica de produção de conteúdo no mundo e despertar o alarme coletivo sobre a intensificação da perda da autonomia dos seres humanos e de espaços no mercado de trabalho.
Essa lógica, alarmista, sim, porém corroborada pelo Fórum Econômico Mundial que, em “Relatório sobre o Futuro dos Empregos 2023”, publicado em maio deste ano, previu que 44% das habilidades humanas atuais estarão defasadas entre 2025 e 2027, para não dizer inúteis. Isso significa que as transformações que costumávamos observar em torno de 30 anos, tempo que representa uma geração, agora acontece entre três e cinco anos.
O imperativo de atualização de si mesmo não é mais opcional, dado fato de o curtíssimo prazo da obsolescência programada do homem não permitir mais a acomodação na zona de conforto, se quisermos manter as condições mínimas de sobrevivência nesta selva. Sim, é assustador. Mas, para você e eu que temos o privilégio do acesso à informação e possibilidade de reflexão há opções, Porém, apesar do privilégio, vivemos em uma sociedade que, em grande medida, tem – de forma consciente ou não – optado por terceirizar as escolhas cotidianas e, consequentemente, a própria autonomia, como bem disse Isaacson que, entre outros livros, também escreveu a biografia de Steve Jobs.
O que fazer diante de um cenário apocalíptico como esse?
Estudar. Aprender. Sempre. Todos os dias. Mas, o quê? Essa resposta vai depender da trajetória de cada um e do que se almeja para o futuro, sendo este bem mais próximo do que podemos imaginar. Por aqui, a opção foi seguir a dica de Isaacson e aprender matemática, pois ela é a linguagem das transformações das quais fazemos parte e fornece uma nova leitura de e sobre o mundo. A identificação da interface dela com a vida é imediata.