19 janeiro 2019

Os Donos do Poder XV

Depois de 15 meses, é gratificante poder afirmar que conclui a leitura de Os Donos do Poder – Formação do Patronato Político Brasileiro, de Raymundo Faoro. E, neste momento,percebo a coincidência entre o período dedicado ao livro (15/10/2017 – 19/01/2019) e o número de capítulos que o compõem. Apesar disso, a leitura não se deu namesma linearidade.

A obra, que nesta 5ª edição publicada pela Biblioteca Azul | Globo, em 2012, com 930 páginas, condensa seis séculos (isso mesmo!) de história que explica a formação do sistema político e econômico brasileiro, a partir da estruturação da dinastia de Avis, em Portugal, ainda no século XIV.

O recorte feito por Faoro termina com o governo de Getúlio Vargas, encerrado quando este comete suicídio em 24 de agosto de 1954.

O capítulo XV, intitulado Mudança e Revolução, é dividido em O abalo ideológico e as aspirações difusas; A emergência do Estado forte e o chefe ditatorial; e Os novos rumos econômicos e sociais.

Nesta etapa do livro, Faoro expõe como os anseios liberaisque ainda se buscava implementar no Brasil, tanto na perspectiva econômica, quanto social, naufragam. As divergências políticas entre aqueles que compunhama elite brasileira, diga-se paulistas, mineiros, gaúchos e cariocas, associada à crise do café, resultante da quebra da bolsa de Nova York (1929), abre espaço para a reestruturação e fortalecimento do Estado centralizador em detrimento da atuação estadual / regional que prevalecia até aquele momento, caracterizada na política dos governadores.

Impressiona o relato de Faoro sobre como Getúlio Vargas, governador do Rio Grande do Sul à época, foi subestimado, visto como um indicado à presidência em acordo com Minas Gerais e com apoio do Exército que seria facilmente controlável.

Pejorativamente apelidado de “chuchu”, a história revela queo julgamento mais que equivocado dos detentores do poder abriu espaço para a instituição de um governo autocrático e autoritário que, ao invés de ser provisório, como planejado, durou 15 anos, no chamado Estado Novo.

Vale destacar que acompanhar o relato do jogo político que levou Vargas ao poder e as manobras orientadas por ele para viabilizar, entre outras coisas, a mudança constitucional, o fortalecimento do Estado aparelhado por burocratas que afastaram por completo o ideal liberal para viabilizar a intervenção estatal na economia, por exemplo, faz ponte com a reflexão de Levitsky e Ziblatt em Como as democracias morrem.

Os partidos, os políticos e o Exército não foram capazes de identificar as características demagógicas, populistas e autocráticas de GetúlioVargas, que também é citado na obra dos americanos, preferindo subestimá-lo.

Faoro encerra Os Donos do Poder com um Capítulo Final no qual apresenta um resumo da trajetória brasileira na construção de um sistema político e econômico que nada tem de nacional.

Segundo o autor, nossa estrutura é uma cópia da portuguesa marcada pela mistura entre o público e o privado, coronelismo, patriarcalismo e todos os elementos que, 60 anos depois da publicação da primeira edição do livro, explica a realidade contemporânea do Estado brasileiro.

Na peculiaridade histórica brasileira, todavia, a camada dirigente atua em nome próprio, servida dos instrumentos políticos derivados de sua posse do aparelhamento estatal. Ao receber o impacto de novas forças sociais, a categoria estamental as amacia, domestica, embotando-lhes a agressividade transformadora, para incorporá-las a valores próprios, muitas vezes mediante a adoção de uma ideologia diversa, se compatível com o esquema de domínio. 

Este é o tipo de livro para revisitar sempre que possível e necessário, por conter muitas informações sobre personagens, episódios,elementos econômicos, políticos e sociais que ajudam a compreender a construção do Brasil, a partir das relações estabelecidas ou não entre os indivíduos.

Além evolução histórica do país a partir dos fatos narrados, Faoro apresenta referências teóricas que embasa as atitudes dos personagens descritos, que incluem Adam Smith, Max Weber e Karl Marx, por exemplo.

O livro conta ainda com cerca de 60 páginas de notas; fac-símile dos manuscritos do autor  da primeira edição, publicada em 1958, e da segunda edição revista e ampliada, de1973; e de uma bibliografia sobre Raymundo Faoro que inclui nomes como Jessé Freire e Alfredo Bossi.

Leitura densa, que requer atenção e reflexão mais acurada, mas totalmente necessária para aqueles que têm interesse em conhecer mais sobre o nosso país e quais são as estruturas que precisam ser modificadas para que ele seja o Brasil que nós queremos.

Livro mais do que recomendado!

4 | 2019