02 julho 2019

Odisseia, a retomada da leitura



Dizem por aí que o processo de escrita traz diversos benefícios aos que a ela se dedicam. Entre esses benefícios, destaque para o esvaziamento da mente a partir do registro das ideias epensamentos que fortemente se repetem e ficam por ali, martelando, até que ganhem vida ou se percam no esquecimento.

Em outros posts, já comentei que escrever, como todo hábito, precisa ser exercitado. Diferente do andar de bicicleta, o ato de escrever não se mantém por si só, ele se perde ao longo do tempo.

Por mais que a escrita esteja em minha vida desde sempre, já passei por momentos de angústia diante da página em branco e do cursor piscando diante dos meus olhos. Mas como acontece com as boas relações, sempre dou um jeito de retomar à escrita e as razões são diversas, passando desde o esvaziamento da mente à tentativa de compreender os raciocínios mais abstratos que possa ter.

Em um primeiro semestre do ano conturbado, escrever ficou um pouco de lado. Esta retomada busca a reorganização da vida, dos pensamentos e sentimentos neste momento que não quero deixar cair no esquecimento. Amanhã quero poder retornar à essas linhas e entender a construção desta caminhada, que nada tem de linear.

Alias, a linearidade não é uma característica da vida, apesar de nos assustarmos quando ela não se concretiza - ou seja, quase sempre!-. Mas, apesar disso, é preciso manter atividades que sejam parâmetros que nos ajudem a compreender as especificidades de cada momento.

Ler e escrever são parâmetros importantes na minha vida. Não só pela possibilidade de mensuração capacidade produtiva e de concentração, por exemplo, mas para a descoberta de mim mesma.

A leitura do poema épico de Homero, Odisseia, sofreu uma parada brusca neste período. Tentei retomá-la algumas vezes, mas, sentia que faltava algo, apesar de já ter passado da metade do livro, o que naturalmente é um fator motivador para a continuação das minhas leituras.

A primeira impressão foi de que a estrutura do texto era o problema. De fato, poemas não são meu forte. Mas eu já tinha chegado tão longe em uma leitura que, em nada me lembrou experiências como a vivida com a poesia moderna de Ferreira Gullar.

Mesmo não sendo difícil como o texto de Gullar, Odisseia requer mais atenção e empenho [ao menos de mim, que sou mais afeita à prosa]. Talvez o tempo e o momento não tenham sido adequados à retomada.

Acredito que o texto tem hora para ser lido. O contexto no qual o leitor está inserido faz diferença no engajamento da leitura. Refletir sobre isso também ajuda na definição de estratégias para superar as dificuldades enfrentadas. Escrever é, portanto, um instrumento essencial neste processo.

No final de semana passado retomei [de novo] a leitura de Homero, na certeza de que, assim como a volta de Odisseu à Ítaca, tudo tem seu tempo de acontecer.

Tudo deve ser feito com regra. Certo, ambos são censuráveis, aquele que força a partida de quem deseja ficar e o que impede a partida a visitas. Cumpre agradar ao que chega, e deixá-lo partir, se o deseja. 

Homero| Odisseia (p. 246)