O que é um livro bom? Essa é uma pergunta que acompanha a trajetória de qualquer leitor e, como a própria experiência de leitura, é algo subjetivo de se responder, a despeito do que dizem os teóricos da área, pois, um texto tecnicamente bem estruturado não é, necessariamente, sinônimo de uma história bem contada. Ao menos não de maneira unanime, pois, mesmo que o autor seja um exímio contador de histórias, o impacto delas para cada leitor é que fará deste ou daquele livro uma obra de destaque na estante de cada indivíduo.
Mesmo que o bom livro esteja envolto em uma carga eminentemente subjetiva, o fator surpresa é daqueles que deve integrar a lista de todos os classificadores de textos. Nesse quesito, A letra escarlate, de Nathaniel Hawthorne, está entre aqueles com enredos mais inesperados ao leitor.
A um primeiro olhar, o livro escrito em meados do século XIX, sobre uma mulher que comete adultério, na Nova Inglaterra ainda no período de colônia inglesa, no século XVIII, marcada pelo puritanismo que subjugava todos aqueles que não se enquadravam às normas socialmente estabelecidas.
Natural da Inglaterra, Hester Prynne já era casada quando se mudou para os Estados Unidos, onde aguarda a chegada do marido, o que não acontece. Rumores sobre a morte dele em expedições científicas, por ser um intelectual da época, está entre as suposições a respeito do paradeiro dele, quando, inesperadamente, Hester Prynne tem uma filha. Por se negar a revelar o nome do pai da criança, Hester é julgada pela sociedade e sentenciada a usar um marcador social – a letra escarlate - que a identifica como adultera pelo resto da vida, em uma época em que era corriqueiro o enforcamento de pessoas por causas semelhantes.
Além de descrever a vida na província que era a Nova Inglaterra, região conhecida pelo passado colonial e formada pelos estados do Maine, Vermont, Nova Hampshire, Massachusetts, Connecticut e Rhode Island, revela a forte integração e a influencia da cultura indígena e da não-europeia sobre a sociedade ali em desenvolvimento. O resultado disso é a forte crença em aspectos místicos da vida terrena, que por natureza, não encontram respaldo no puritanismo religioso que ali prevalece.
Não por acaso, este é um livro com elementos góticos que trata sobre a culpa, mas, não, prezado leitor, não é a culpa de Hester Prynne. Ao menos, não só a dela, pois este é um sentimento que pesa sobre todo aquele que está mais preocupado em atender às expectativas de terceiros, se fazendo caber em moldes previamente estabelecidos, do que se pode imaginar. A única certeza, é que a conta sempre chega e, por vezes, onde menos se espera. Por isso, liberte-se, e encare esta leitura que vale, sim, cada minuto dedicado!
“Não há homem que, durante um período considerável seja capaz de manter uma cara para si e outra para a multidão sem que, por fim, caia em confusão sobre qual das duas é a verdadeira.” Nathaniel Hawthorne
Morto em maio de 1864, aos 59 anos, Nathaniel Hawthorne está entre os maiores contistas dos Estados Unidos, além de ser considerado o primeiro grande escritor norte-americano. De acordo com a crítica literária Nina Baym, A letra escarlate é um romance que foi aclamado desde a primeira publicação (1850) como um livro clássicos, ocupando até hoje um lugar entre as obras-primas da literatura americana.
