25 dezembro 2022

"Então é Natal, e o que você fez?"

“Então é Natal, e o que você fez?” Essa é a pergunta daquela canção de Simone para a qual as pessoas tendem a virar os olhos quando a ouvem porque apesar dela ter sido lançada há 27 anos, a impressão, desde então, é que ela é existe desde o nascimento de Jesus.

Não é, mas assim como o nascimento de Jesus, ela nos causa desconforto por nos convidar a olhar para nós mesmos e assumir a responsabilidade por nossas ações, bem como pelas respectivas consequências que delas decorrem. “Então é Natal, e o que você fez?”
Jesus nasceu há 2022 anos com a missão de ensinar a cada um de nós, por meio do exemplo, o que e como viver como um ser humano, longe do espectro da divindade, o amor incondicional pelo outro proposto por Deus. Ele nos mostrou que para isso, precisamos aprender a amar o próximo como a nós mesmos.
De acordo com o evangelho de Mateus (22, 37-39), o grande mandamento é: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
Apesar de conhecermos os dez mandamentos, literalmente de cor, foi apenas há alguns anos que a atenção foi despertada para o trecho no qual Jesus enfatiza que o exercício do amor deve acontecer de todo o nosso coração, ou seja, conforme a intenção de cada um, de toda a alma, em referência ao conhecimento, e, tão importante quanto isso, de acordo com o entendimento que temos do que seja esse sentimento.
Mas, observe, o amor é colocado como um verbo que para ser vivido requer ação e, o que nos diz Jesus, é que essa prática se dá a partir do exercício do amor-próprio, colocado por Ele como parâmetro do que entregamos ao outro. Nesse momento, ecoa no pensamento a pergunta: “Então é Natal, e o que você fez?”
Antes de imaginar que o objetivo desta reflexão é tirar o brilho festivo culturalmente vendido para esta data, vamos pensar neste processo como uma oportunidade de dar a este dia, e à vida cotidiana, o sentido que o aniversariante nos propôs há mais de dois mil anos. Certo?!
Neste ponto, angustiada sobre como construir a melhor resposta ao questionamento feito por Simone, vale recordar o ensinamento de Santo Agostinho, registrado na resposta ao item 919 de O Livro dos Espíritos, que diz: “Qual é o meio prático e mais eficaz para se melhorar nesta vida?”. O filósofo, então, responde: “Um sábio da antiguidade vos disse: ‘Conhece-te a ti mesmo’.”
Santo Agostinho desenvolve essa ideia da seguinte forma:
“Aquele que, cada noite, lembrasse todas as ações da jornada e se perguntasse o que fez de bem ou de mal, pedindo a Deus e ao seu anjo guardião para o esclarecer, adquiriria uma grande força para se aperfeiçoar, porque, crede-me, Deus o assistiria. (…). O conhecimento de si mesmo, portanto, é a chave do progresso individual. Mas, direis, como se julgar? (…). Quando estiverdes indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, perguntai-vos como qualificaríeis se fosse feita por outra pessoa; se a censurais em outrem, ela não poderia ser mais legítima em vós, porque Deus não tem duas medidas para a justiça.”
Somente na prática desse exercício proposto por Santo Agostinho teremos condições de fazer o que Jesus orientou, pois assim teremos a chance de refletir e compreender nossas próprias intenções e parâmetros de amor, exercitar o amor-próprio e, consequentemente, o amor ao próximo, todos os dias de nossas vidas. Não, isso não se dá em uma noite protocolar, ao redor de uma árvore cheia de presentes comprados e uma mesa farta de comida. Não. Isso é resultado de um processo de construção diária.
Como o professor Clóvis de Barros Filho comentou no episódio 41 do podcast #PartiuPensar , a partir de uma reflexão de Plutarco, um contemporâneo de Jesus, o pensamento é um trabalho inédito realizado a partir do desenvolvimento de uma musculatura intelectiva que, por sua vez, é resultado de muitas experiências, treinamentos e práticas mentais.
Por isso, não é fácil responder à pergunta de Simone, mas se estamos celebrando o nascimento de Jesus, é a partir dos ensinamentos dEle que nosso cotidiano deve ser construído. Isso significa assumir a responsabilidade que é de cada um de nós e, como Santo Agostinho, responder diariamente : “Então é Natal, e o que você fez?”
Meu desejo é que os ensinamentos de Jesus orientem a nossa jornada para que, daqui a 365 dias, tenhamos uma resposta melhor do que a de hoje para a pergunta de Simone.