“Tive uma professora na faculdade que devolveu nossos trabalhos corrigidos, andou até o quadro-negro e escreveu em letras garrafais: ‘E DAÍ?’ Ela jogou o pedaço de giz fora e disse: ‘se faça essa pergunta toda vez que for escrever algo’. Eu nunca esqueci a lição.”, revelou Austin Kleon, no livro “Mostre seu trabalho – Dez maneiras de compartilhar sua criatividade e ser descoberto”, publicado pela editora Rocco.
Já imaginou como nossos dias seriam mais amenos e as relações mais facilmente estabelecidas se todos nós fizéssemos esse exercício antes de despejar na praça pública que é a internet a verborragia que povoa nossos pensamentos?
A proposta da professora de Kleon tem como fundamento a observação da intencionalidade daquilo que pensamos, fazemos, compartilhamos e queremos. Não somos autômatos e como seres racionais, apesar de muitas vezes parecer que esquecemos disso, pensar sobre a intencionalidade das palavras expressas em um mundo cada vez mais conectado é assumir a responsabilidade pelas consequências próprios atos, sem vitimismo.
Sem muito esforço, é fácil conectar o “teste do e daí?”, como Austin Kleon o denomina, com aqueles emojis dos macaquinhos que nos orientam a não deixar a boca espalhar coisas que não foram vistas com os próprios olhos ou ouvidas com os próprios ouvidos. Isso parece algo tão elementar à civilidade humana, mas basta uma passadinha rápida pelo feed de qualquer rede social para comprovar que, ao que tudo indica, a racionalidade foi deixada de lado em nome do engajamento via algoritmo e, o que é realmente preocupante, com o ódio como força motriz.
Como a experiência nas redes sociais apenas amplifica de maneira intensa os anseios dos indivíduos, dá para imaginar o tamanho do benefício se o “teste do e daí?” for aplicado por cada um em seus respectivos microambientes.
As relações que estabelecemos em casa, no trabalho, no transporte e demais ambientes públicos têm o poder de desencadear o efeito em dominó. E mesmo que a atuação de um único indivíduo pareça não ter relevância é importante lembrar que cada um só pode se responsabilizar pelas próprias ações e, nesse contexto, se apropriar da possibilidade de ser exemplo para alguém, porque é exatamente isso o que cada um de nós é: exemplo para os que nos rodeiam.
O imediatismo favorecido pelas novas tecnologias não é obrigatório, pois as novas tecnologias são ferramentas à serviço do homem. Portanto, esperar um pouco para amadurecer uma ideia é uma conduta que, certamente, favorecerá o diálogo, e, portanto, não é e nem nunca será um problema. Ao contrário disso, é uma postura de utilidade pública.
