10 agosto 2026

Programa de monitoramento da balneabilidade das praias é suspenso no RN

 “Mad Men” é uma daquelas séries que marcaram a história do audiovisual no mundo, o que é comprovado pelos quatro Emmys e três Globos de Ouro conquistados na categoria Melhor Série de Drama em anos consecutivos, durante a exibição das sete temporadas, entre 2007 e 2015.

O fato de contar com roteiro e produção executiva de Mathew Weiner, que também escreveu e produziu as temporadas finais de Os Sopranos, exibida entre 1999 e 2007, e que é apontada, com frequência, como a melhor e mais influente série de todos os tempos, diz muito sobre a história de Mad Men, que narra a rotina de uma agência de publicidade na Nova York da década de 1960.

Com Jon Hamm interpretando o protagonista Don Draper nos 92 episódios que compõem a série, acompanhamos o glamour que encobria a perversidade do negócio desenvolvido pelas agências de publicidade.

Os hábitos e costumes daquela época, que conversam com o cotidiano social contemporâneo, integram as razões para Mad Men seguir despertando o interesse das pessoas e inspirando atitudes.

As listas com frases marcantes de Don Draper continuam circulando no mundo virtual, mesmo depois de mais de dez anos de encerramento da série.

Em uma dessas frases, Don Draper afirma. “If you don’t like what is being said, change the conversation”, que em tradução livre significa “Se você não gosta do que está sendo dito, mude o assunto”. Esta afirmação é dita por ele no segundo episódio da terceira temporada, e é fácil encontrar a aplicabilidade desta máxima nos nossos dias.

Aliás, esse parece ser o caminho que está sendo seguido pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte, o Idema, depois de ter decidido suspender o Programa Água Azul de Monitoramento da Balneabilidade das praias do RN desde a última semana de julho de 2026, sem que a justificativa para tal decisão fosse divulgada, apesar da relevância social e sanitária do projeto, desenvolvido em parceria o IFRN e a Funpec.

A informação sobre a suspensão do serviço foi revelada pelo geólogo e professor, Ronaldo Diniz, responsável pela coleta e análise das amostras de água das praias do RN, após ser questionado sobre a ausência do Boletim que deveria ter sido publicado na sexta-feira, 31 de julho de 2026.

Em mensagem enviada por e-mail, no dia 4 de agosto de 2026, o professor informou que “infelizmente o monitoramento da balneabilidade das praias do RN (Programa Água Azul / Monitoramento da Balneabilidade) se encontra temporariamente suspenso. Maiores detalhes sobre esta situação, que torcemos que por curto tempo, podem ser obtidos junto ao Idema / Coordenação Geral do Programa Água Azul”.

Seguindo a orientação do professor Ronaldo Diniz, questionamentos, por e-mail enviado no dia 4 de agosto de 2026, para as assessorias de imprensa do Idema e do Governo do RN, sobre a razão da suspensão do Programa de Monitoramento da Balneabilidade, mas não tivemos retorno.

A única mensagem que chegou, do mesmo e-mail da assessoria de imprensa do Idema, foi o informativo sobre a mudança de titularidade no setor a partir desta segunda-feira. Até então, uma jornalista respondia pelo órgão, agora serão dois, mas o que de fato importa à sociedade segue sob sigilo, que é a apresentação da justificativa para a suspensão do monitoramento da balneabilidade, há duas semanas, o que claramente o professor Ronaldo Diniz está impedido de fazer.

[caption id="attachment_2578" align="aligncenter" width="408"] Mensagem do professor Ronaldo Diniz informando a suspensão do Programa Água Azul[/caption]

O que o monitoramento da balneabilidade significa?

A condição da qualidade da água é classificada, pelo Programa Água Azul, a partir da identificação da quantidade de coliformes fecais termotolerantes por 100 mililitros de água, o que a coloca nas categorias “Própria” ou “Imprópria”, de acordo com a Resolução   nº 274, de 29 de novembro de 2000, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Quando “Própria”, a água pode ser considerada “excelente”, “muito boa” ou “satisfatória”.

O resultado da análise é considerado “satisfatório” quando em 80% ou mais de um conjunto de cinco amostras obtidas no mesmo local, semanalmente, houver, no máximo, 1.000 coliformes fecais por 100 ml. Ou seja, se nas cinco semanas houver dois ou mais resultados consecutivos com mais de 1.000 ou uma análise com mais de 2.500 coliformes, a praia está imprópria.

Isso significa dizer que o resultado da análise da água não é absoluto e deve ser considerado relativamente ao conjunto de cinco semanas. Até a suspensão do Programa, todas as quintas-feiras acontecia a coleta de água em 33 pontos das praias de Natal e região metropolitana, sendo a divulgação do resultado da análise feita às sextas-feiras para orientar a população.

Após a obra da engorda da praia de Ponta Negra, a constatação científica da elevada quantidade de coliformes fecais nas amostras analisadas passaram apenas a confirmar o que é visto a olhos nus por quem passa pelas praias urbanas de Natal. A gravidade da situação associada à falta de ação para reverter a situação por parte da Prefeitura de Natal e do Governo do Estado, levou à inclusão de uma mensagem de alerta no Boletim da Balneabilidade de 19 de junho de 2026 alertando a população a evitar “qualquer contato direto com essas águas, impróprias para o banho e que representam grande risco de transmissão de doenças de veiculação hídrica.”

O caos chegou ao ápice no Boletim nº 30 de 2026, de 24 de julho passado, quando a quantidade de coliformes fecais constatadas em Ponta Negra chegou a 160 mil e a 240 mil na Praia do Meio. Pirangi, Areia Preta e a Redinha também estavam impróprias.

Confira aqui o último Boletim do Programa Água Azul, nº 30, de 24 de julho de 2026.

Esta foi a última vez que o Boletim Com a Classificação das Condições de Balneabilidade das Praias do Rio Grande do Norte foi divulgado pelo Programa Água Azul.

Neste final de semana aconteceu a etapa Natal do Circuito Banco do Brasil de Surf na praia de Miami, mas ninguém precisaria saber sobre a qualidade da água, não é mesmo?

Ironias a parte, vale ressaltar que enquanto a Prefeitura de Natal e o Governo do Estado seguem jogando um para o outro a responsabilidade pelo caos que aí está, mudar de assunto não mudará a realidade da transformação das praias urbanas de Natal em esgoto, da ameaça à saúde pública e da degradação da cidade como destino turístico.

Para ter acesso aos boletins de Classificação das Condições de Balneabilidade das Praias do Rio Grande do Norte publicados pelo Programa Água Azul clique aqui!