16 fevereiro 2026

“Allen Vs. Farrow”

Lançado em 2021 pela HBO, o documentário “Allen Vs. Farrow”, que trata da acusação feita ao ator e diretor Woody Allen de abuso sexual contra a filha adotiva dele e Mia Farrow, Dylan Farrow, quando ela tinha 7 anos. 
Dividido em quatro episódios, o documentário produzido por Amy Herdy mostra a trajetória da vida de Mia Farrow como atriz e mãe, bem como os caminhos que a levaram a conhecer Woody Allen. Mia já tinha sete filhos quando o relacionamento com Allen começou. Depois, adotaram Dylan e tiveram mais um filho biológico. 
A acusação de abuso sexual data do início da década de 1990, mesmo período no qual Mia Farrow descobriu que Allen mantinha um relacionamento com outra de suas filhas adotivas, Soon-Yi, desde a adolescência dela, quando ainda estava no ensino médio. Farrow só descobriu o relacionamento quando Soon-Yi estava no primeiro ano da faculdade.
Quando ouviu a história de Dylan sobre o abuso, Farrow a levou para uma consulta médica e o pediatra denunciou o caso à polícia. Quando soube da denúncia, Woody Allen concedeu uma entrevista coletiva à imprensa, durante a qual afirmou que a denúncia de Dylan era falsa e que a menina tinha sido treinada para mentir pela mãe, ressentida pelo relacionamento de Allen com a outra filha dela, Soon-Yi.
Ele, que já era consagrado diretor, vencedor de múltiplos Oscares, usou a influência que tinha para atacar Farrow e Dylan na imprensa, com campanhas difamatórias. Além disso, requereu à Justiça a guarda de três dos filhos de Mia.  O juiz da Vara da Família negou o pedido de Allen afirmando que a denúncia de abuso era verossímil, além de tê-lo proibido de encontrar Dylan.
A investigação criminal contra Allen, que corria em paralelo, reuniu fatos e evidências concretas para processar o diretor, mas dependia do depoimento de Dylan ao tribunal que, aos sete anos, não teve condições para prosseguir. Por isso, o processo não teve andamento. Mas, diferente do que Allen afirma, ele nunca foi inocentado. O que os fatos e dados demonstram é exatamente o contrário.

A melhor defesa é o ataque

A tática usada por Woody Allen para difamar Mia Farrow e de usar a influência que tinha para impedi-la de conseguir novos trabalhos como atriz, além de contratar detetives particulares para assediar não só a ela mesma, mas como todas as pessoas do entorno dela e até mesmo policiais é uma prática a qual predadores recorrem para intimidar.
Jefrey Epstein e Harvey Weinstein acusados de crimes sexuais em série contra crianças e mulheres utilizavam a mesma estratégia para silenciar as vítimas de seus respectivos abusos, revitimizando cada uma dessas pessoas por décadas.
Dylan Farrow passou 20 anos sendo atacada e tratada como mentirosa e manipulada pela mãe, como se a experiência traumática vivenciada por ela e contada repetidas vezes, de maneira consistente, não tivessem valor.
O documentário  “Allen Vs. Farrow”, muito mais do que contar essa história, representa uma virada no jogo de narrativas, ao registrar dados e fatos que sustentam o relato de Dylan e desmascaram o predador que Woody Allen é. 
Esse é o tipo de conteúdo que nada tem de agradável, mas que é totalmente necessário por expor como criminosos investidos de poder e influência agem para aliciar  e silenciar vítimas, e cooptar aliados. Este é o tipo de situação em que a melhor arma que podemos ter é informação.