Em 2016, o chatbot Alpha Go venceu o campeão mundial do jogo de tabuleiro Go, o que poderia ser considerado apenas mais uma vitória da máquina sobre o homem, desde a derrota de Garry Kasparov, em 11 de maio de 1997, para o supercomputador da IBM batizado de Deep Blue. Mas, não. Desta vez, a máquina, além de demonstrar estratégia, revelou intuição humana.
A constatação de características humanas, que deveria ter deixado o mundo de cabelos em pé, parece ter passado desapercebida para a grande maioria das pessoas, porém, não sem ter se tornado tema de discussão para pesquisadores como o psicólogo israelense e norte-americano, Daniel Kahneman.
Psicólogo e Nobel de Economia de 2002 pelo trabalho desenvolvido sobre economia comportamental, em parceria com Vernon Smith, Kahneman afirmou, em palestra realizada em 2021, não considerar uma boa resposta a ideia de alguns otimistas de que as pessoas usarão a inteligência artificial como ferramenta.
Segundo ele, desde o episódio com Kasparov, no xadrez, e que, atualmente, mesmo os programas de inteligência artificial que ainda não são tão bons, não dão chance para os humanos no jogo contra eles. “Isso vai acontecer sempre que colocar um algoritmo contra um humano e o algoritmo for quase tão bom quanto o humano. É só questão de tempo. O algoritmo será melhor do que o ser humano e não precisará de um ser humano”, observou.
Entre os otimistas, podemos incluir Bill Gates. O fundador da Microsoft publicou no dia 11de julho de 2023, um artigo no blog dele, cujo título, em tradução livre, é “Os riscos da IA são reais, mas administráveis”. No texto, Gates observa que o ser humano já passou por outros momentos de disrupção e se adaptou da melhor maneira possível. Para ele, o que a inteligência artificial está causando na sociedade é similar às transformações trazidas pela inserção do computador pessoal na vida das pessoas, mas não tão impactante quando a Revolução Industrial. Esses são alguns dos argumentos que Gates utiliza para justificar a oposição que faz à suspensão dos estudos na área, pois, entre outras coisas, observa ele, colocaria a sociedade um passo atrás daqueles que não vão parar de criar formas de utilizar a IA para burlar sistemas e regras. Bill Gates defende que é pelo aprimoramento da inteligência artificial que o homem conseguirá encontrar as respostas que busca para solucionar esse e outros problemas.
Kahneman reconhece que tem acontecido uma “tremenda melhoria nas conquistas da inteligência artificial”, porém, segundo ele, isso possibilitou que em diversos contextos o software da IA supere as pessoas, supere o julgamento profissional e isso é um processo que está acontecendo cada vez mais. “Claramente, há muito com que se preocupar. Muito do significado da vida das pessoas está relacionado com o trabalho. Quando você for deslocar pessoas, o que isso vai fazer com elas?”, questiona o psicólogo, autor de “Rápido e devagar: duas formas de pensar”.
Segundo Daniel Kahneman, a sociedade terá grandes problemas associados à substituição das pessoas pela inteligência artificial. “É muito perigoso, claro. As pessoas não vão reagir silenciosamente. Vai ser extraordinariamente difícil ajustar a situação para inserir a vida e a sociedade a essas mudanças”, diz.
A previsão de Kahneman é uma realidade em situações como a da greve anunciada pelo Sindicato dos Atores dos Estados Unidos em 13 de julho de 2023, movimento que se soma à paralisação dos roteiristas iniciada em maio, que tem na pauta a preocupação com a precarização do trabalho devido ao uso da inteligência artificial nos estúdios de Hollywood.
Em 2021, Kahneman observou que “por enquanto, os humanos estão tomando as decisões importantes, por isso é importante tentar melhorar o julgamento. Os humanos ainda estão no comando. No futuro, eu não sei e acredito que ninguém saiba.”
