03 setembro 2024

A adolescência e os mistérios da vida humana

 “Alma do adolescente” é o título da crônica escrita por Cecília Meireles e publicada na edição de 20 de agosto de 1930 do Diário de Notícias, no Rio de Janeiro, na qual Meireles fala sobre o livro “Psicologia da Juventude”, escrito pelo psicólogo Eduardo Spranger, que, segundo ela, conseguiu abordar “todos os pequenos problemas da personalidade, nessa fase cheia de hesitações”, de maneira profunda e afetuosa.

A escritora e jornalista observa que, além de expor as dificuldades enfrentadas pelos adolescentes, tanto pelas transformações biopsicossociais inerentes a esse período da vida, quanto pelo que Spranger denomina como “a íntima tragédia da idade juvenil desamparada pelos que a censuram e repreendem sem lhe darem a seiva que a deveria nutrir”, o psicólogo dá exemplo da postura de abertura e acolhimento que deve ser adotada com esses indivíduos.

“O valor da obra de Eduardo Spranger é imenso pelo que nos revela de uma fase da vida que só pode ser compreendida por quem a observa com amor”, enfatizava, há quase um século, Cecília Meireles, como quem alerta para o fato de que apesar de parecerem adultos, os adolescentes são seres em desenvolvimento que oscilam por período diferentes da vida, mas ainda bastante arraigados à infância e que devem ser vistos dessa forma.

A necessidade da observação da individualidade dos jovens, bem como das peculiaridades que marcam a fase que atravessa, é ainda mais necessária, de acordo com Meireles, que também é professora, para os responsáveis pelo processo formativo deles. “Esse valor [da obra de Spranger] se torna mais alto quando se pensa no bem que ele pode trazer à humanidade, divulgando essas observações entre os que especialmente se destinam à formação da adolescência, tantas vezes alheios a todos os seus problemas interiores”.

Meireles é textual ao afirmar que os professoras deveriam agregar aos conhecimentos especializados que lecionam, aos quais “dão importância quase sempre excessiva”, a leitura do livro de Spranger, “o que decerto concorreria para lhes abrir horizontes pedagógicos muito mais amplos”. Afinal, a formação de um indivíduo não está restrita aos aspectos objetivos da vida, tendo em vista de o resultado do entrelaçamento desses com a subjetividade humana e social.

Apesar do longo período decorrido, da ocorrência da maior crise sanitária do século – a pandemia da Covid-19 - e do aumento das desigualdades sociais, a atualidade do texto é reflexo da sensação de que pouco ou nada avançamos no cuidado de crianças e adolescentes, em especial no que diz respeito à saúde mental, na medida em que seguimos tratando adolescentes como pequenos adultos, a despeito das dificuldades inerentes à fase. É como se nenhum de nós, nunca, estivesse estado lá.