28 junho 2017

Seja a exceção!

O ano começou tendo como uma das pendências a serem resolvidas a renovação da habilitação. Um mês antes da data de vencimento do documento começou a preparação psicológica porque, de acordo com a voz do povo (que dizem por aí ser a voz de Deus), o atendimento nas Centrais do Cidadão só piorou com o passar dos anos.
Dias antes do final do prazo, verifiquei as informações referentes ao processo no site do Detran, organizei o que precisava levar e escolhi um dia em que o tempo dedicado à renovação da habilitação não atrapalhasse tanto os demais compromissos.
Separei um novo livro para levar na bolsa, pois sabia que a espera seria longa. O clamor popular transformou a expectativa em momentos de ansiedade e fui no horário de abertura do shopping, onde um dos pontos de atendimento funciona. Erro de amadores, pois a Central do Cidadão abre uma hora antes. Ou seja, mais de 60 pessoas tinham chegado antes de mim, de acordo com o painel de chamadas.
À minha frente, na fila para pegar a senha de atendimento, um gringo que teve os documentos roubados e queria dar entrada no processo para retirar a segunda via da habilitação. Quando a recepcionista o informou que era necessário apresentar um documento de identificação original ele, que estava com uma cópia autenticada da identidade, começou a gritar.
Pacientemente, a recepcionista explica que está apenas dando as informações que o gringo, obviamente, não aceita e continua gritando. Todos param o que estão fazendo para acompanhar o show. Eu, que estava atrás dele, apenas abaixei a cabeça, porque a vergonha parecia minha.
A recepcionista pediu ajuda a uma das atendentes que prontamente afirmou que o atenderia, mas pediu para ele sentar e aguardar a conclusão do atendimento em andamento. Com o termino do show, a recepcionista entrega a minha ficha, para lá do número 100, explica que tem mais de 60 pessoas a minha frente e pergunta se vou querer aguardar. Digo que sim, pois estava preparada para a espera.
Encontrei uma cadeira vaga de frente para um dos quatro atendentes e abri meu livro. Sim, você leu bem, quatro atendentes para não sei quantas centenas de atendimentos a serem realizados por dia, já que cheguei no início da segunda hora de funcionamento do setor e a minha senha já passava do primeiro cento.
Com um olho no ambiente e outro no livro, vi quando a atendente chamou o gringo que, num tom muito mais adequado do que o inicial, repetiu o que queria. Tão paciente quanto a recepcionista, a atendente explicou que o documento de identificação original é exigência da legislação brasileira. Sem mais se exaltar, ele a acompanhou até outra recepção para mais informações. Voltaram e ele saiu de lá do mesmo jeito que entrou, sem dar entrada no processo, por causa da falta do documento de identificação original, mas deixou para trás (ou para nós que ali ficamos, como queira) a irritação inicial, pelo simples fato de ter sido ouvido.
Com o passar das horas, os quatro atendentes ouviram mais gritos, fizeram ligações de seus telefones pessoais para outros setores do Detran afim de resolver as mais diversas situações das pessoas que ali chegavam, se revezaram para o horário almoço (único momento de ausência no período em que estive ali), e mesmo com toda a sobrecarga, fizeram o melhor que puderam para solucionar as demandas apresentadas a eles, com a maior cordialidade possível.
Nenhum deles respondeu a qualquer das provocações e /ou grosserias das quais foram alvo. Para todas elas, a resposta foi a famosa “cara de paisagem”, afinal todos que ali estavam eram testemunhas de que o trabalho estava sendo feito da melhor maneira possível, apesar de todos estarem sobrecarregados.
A realidade mostra que a paciência é uma virtude a ser exercitada nesses momentos, não apenas pelo inevitável período de espera, mas especialmente pela falta de respeito dos indivíduos para com a coletividade.
Pessoas escutando seus áudios e/ou vídeos em alto volume, sem se preocupar no incômodo causado aos demais, afinal, o que importa é meu bem-estar, não é mesmo? Custa usar os fones?
Pessoas que, conversavam ao celular sem prestar atenção ao andamento das fichas e por causa disso, perderam a vez, dando escândalo pelo fato de os atendentes terem chamado o próximo. Afinal, eles eram obrigados a adivinhar que o número X estava numa ligação importantíssima...
Pessoas que fazem suas ligações em ambientes fechados e mantêm conversas como se todos naquele local estivessem interessados e/ou fossem obrigados a acompanhar seus lamentos e reclamações. É difícil falar baixo ou sair do ambiente para resolver o que for inadiável e depois retornar?
Depois de quatro horas de espera; ¼ do livro “1968: O que dizemos de nós”, de Zuenir ventura, lido; um compromisso cancelado; renovei meu documento e pude constatar que nem sempre a voz do povo é a voz de Deus. O atendimento no Detran da Central do Cidadão do shopping Via Direta é muito bom. As pessoas são cordiais, ágeis e prestativas, dentro das condições que são oferecidas ao trabalho. O problema está na falta de pessoal para dar conta da demanda, assim como estrutura adequada para que as atividades desenvolvidas sejam melhor desempenhadas. Mas, sobretudo, o problema maior está na intolerância das pessoas com absolutamente tudo, resultante de um individualismo exacerbado que dificulta qualquer possibilidade de convivência harmônica.
Se queremos uma sociedade melhor para nós mesmos e para as futuras gerações, precisamos ser a exceção que nada mais significa do que a necessidade de sermos humanos. 

2 comentários:

  1. Concordo, em gênero, número e grau! O nome disso é "umbiguismo", e é uma enorme doença do nosso século - não que não existisse antes, mas acho que foi agravada nos decorrer das últimas décadas.
    Não há condições de convivência pacífica sem o mínimo de empatia, não?

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    1. Você tem razão! E temo pelo fato de perceber que o incentivo ao individualismo / 'umbiguismo' só cresce. Basta observar a socialização (?) das crianças. Estava em um aniversário quando me dei conta de que as seis crianças presentes estavam em seus respectivos tablets. Fiquei chocada. Esses tendem a ser tornar adultos com nível zero de empatia... Difícil, viu?! =/

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